domingo, 12 de abril de 2015

compro

garrancho novo
desses que tombam para o lado
fazem música de
recados banais

garrancho inédito
anônimo
que se declare para célia
mara ruth almir roberto paiva
nos discos de 1982
à venda no centro

garrancho assumido
que deslize a curva do S
e invada com um til
o coração

garrancho sem medo
de ser só garrancho

sábado, 31 de janeiro de 2015

eu, luto

portugal fugiu pra guanabara
mas será sempre portugal

eu ando os mesmos passos que roberto
gravata, morte e dona paixão
mas não sou nenhum
“dylan despedaça meu
coraçãozinho”, eu segredo
ao homem do violão elétrico
que ao contar metal dará com
coraçãozinho despedaçado
em tinta azul

eu sento os mesmos troncos que casal
gravata e wagner ubatuba
e ouço wagner ubatuba dizer
desdentado os mesmos fantasmas:
distância 
ganância
sp
mal assopra as velas 
e te lembram o podre
                        (ou aquariana solta 
                      orgulho astral do teu 
                                    s k y l i n e)

a rua é habitada por 
olhos que têm medo de olhos
eu levo as mãos à cabeça qual sylvia,
monica e miss lonely
por saber que a guanabara
guarda o mesmo d. joão de portugal

antigamente as palavras
saíam desmedidas e eu fazia retratos 
sem saber que atestava
a ilha da existência
titubeio e vou às mesmas projeções que casal,
larissa e professora universitária
eu que gosto da tortura 
da memória 
caso alguém me veja, diga que estou viva
estou viva e uso poá
que estou sem você hoje
também ontem, também 
amanhã
já estou sem estômago
pros pigarros alheios, já aprendi
a chorar no banho
já sei das mãos atadas
e não posso anunciá-lo:
certos anúncios vêm do silêncio

você fugiu pra guanabara
e será sempre silêncio
de nada serve boa tarde,
boa sorte, se afogue no inferno
paulo mendes morreu mas bordou
este desencaixe
e quem somos nós depois de
paulo mendes?

eu luto sem diagnóstico
você é imóvel, catalogado
afogado no inferno
da guanabara

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

na janela do ônibus que me leva ao mesmo lugar de todos os tempos
pensei meu rosto que hoje traz sombras de sono debaixo dos olhos
esse peso cínico que cai na minha boca desenhada quando sorrio
e vejo que não tem porquê;
no espelho não sei se minha sobrancelha traz algo novo no fato de
não te amar

domingo, 6 de julho de 2014

prazer

faço longas pausas
me meto em cantos
sem nome
observo como se fosse filme
revival diário
que embrulha estômago
pele virou artifício:
fronteira enorme
do lado de cá, vontade
o resto é status quo
do plástico deles
leio p l á s t i c o
viro a cara sem cerimônia
barriga que ronca
nua
no lençol
prazer: calor

segunda-feira, 21 de abril de 2014

amor agonizo

tempos outros
eu baixaria a cortina
forraria a página
com poemas
concretos;
hoje perco os diálogos
pensando nas tuas mãos
que ainda vivem
nas minhas
e brinco de esperar
que o resto se invente.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

noite calor


escrito pra essa Ana Cristina Cesar rosa, azul celeste no meu criado-mudo.

A cama é uma Rússia toda
e lá em cima suspiro ao 
ventilador
mas ele não se faz notar
É só o frio que
beija as minhas
pernas.
Ele é impaciente.
Água dos olhos quis
sair correndo pela porta aberta
te contar que não consigo dormir
e que traio
a mim mesma.
Água dos olhos flamba o rubor
do rosto de sol abusivo
diz que, minha, se resolve
e entre registros
indecisos
e miseráveis
cai tinta preta no papel.
No quarto ao lado você amarrota 
as bochechas
ele assiste cinema americano
no primeiro andar de não sei onde
e eu cuspo esmalte
pro abajur

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

mania

das negativas não o esquecimento
e nem tiro do passado
da voz em verso
esse gosto
de açú
car

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

tatuagem II

domingo no parque eu
comprei um coco e afago
seu cabelo como se 
fosse o céu.
num ato imprimo tudo que já 
me foi, qual reza: violão de 72, 
versos duma antologia e 
silhuetas dos anjos.
que seu desprazer
se vire do avesso.
que a minha voz de mulher
te encha o estômago sem dinheiro.
os sentidos cinco bastam 
para que esqueça da morte.
que eu cubra o azul
escuro do teu ser 
com o claro dos gestos brutos.
que eu lave o ralhar
e o resto
com a ponta dos cílios 
até que se vira e sopra 
que eu sempre fique.
que eu instale a palavra
sem nunca a pronunciar.
o sol é pálido e te põe pra dormir;
que eu cure e seja o peso da ida.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

aliás

"Noite de Natal.
Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída
com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
trepar aos 45 anos
Entretanto sou moça
estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
me leva indesejável pra perto das
botas pretas
pudera"

(Ana Cristina Cesar. "Poética". p. 22.)

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

branco e preto


porque é passageiro
o abraço da sua mania
e a marola doce que 
ele me proporciona;
pregada na janela
por mais dois ou 
três devaneios 
e revomitando o amor 
pleno
do sonho,
eu vivo a alegria miúda
de viver das cenas esparsas,
impossibilidades coloridas
e da finitude do sentimento
vagabundo que emana dos
seus olhos
[não dos meus, que
este não morre]

terça-feira, 26 de novembro de 2013

palinódia

a borracha ao passado é estúpida
e apaga até o visível.
não, o tempo não veio de inutilidade.
fomos, vivemos, corremos,
sumimos,
sim,
e o resto é bobagem.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

maré

o riso do homem
ninguém menciona,
sozinho quando lembra
de piada e constrange
o ônibus.

da cama quando chora
ninguém ouve; ele chora
mais alto pra ver se vêm
com a ambulância.

pelas ruas do bairro
recolhem o lixo, cantam
nos bares e latem
o pulmão.

ambulância nenhuma
e se fossem mil, pra quê?
de consolo basta a aorta
e sua voz é da que
arranha
seda.

nos pratos de vidro
ele busca a redenção,
vivendo pelas negativas
a afirmação do ser.

talvez chore porque o desejo 
é m a i o r que toda a realidade 
do mundo.

domingo, 15 de setembro de 2013

subsolo


A certeza de caminhar para a morte lenta e gradual só não me consome porque o existir é mais profundo. A tal fuga se reitera em cada disco, em cada riso, e dá vazão para todo o possível guardado debaixo do cotidiano. Somos pontos e somos fogo e sobre o resto não me decido.
A certeza de que caminho para a morte é mais real quando contabilizo as perdas, mais viva ao ler diariamente a nossa lápide. Você está em todo passo que não dou e em toda pausa que pede um semáforo. Conto nos dedos os fins de semana que não me custam nada, embora pesados feito enchente. Não fico sempre assim, já dancei sozinha ao som de vinho, já me perdi por outros braços e becos desta cidade... como quem não guarda, já andei sem olhar pros lados. Metade teatro, metade diamante.
Se me arrependo é pela falta -- sempre é pela falta. Aprendi sim senhor, Drummond, que falta não é ausência; no entanto hoje não distingo eloquência de realidade, nem saudade de mágoa. Você foi e, sem estar, restei-me com outro estar: nem sei se teu, mas um além-ser. A dor pega de todos os alimentos, sozinha, paralelamente à vida automática debaixo deste céu. Ponho-a para dormir, durmo, pego o ônibus, vivo nas telas convivendo com o eterno peso, às vezes nem sensível; é aí que me sinto como quem anda para a morte, lívida e estrela num gosto só meu.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

tatuagem

Madrugada chega e eu me pergunto o que terá acontecido 
com a doença do seu cachorro
estou já com as mãos no telefone e
dou por mim
que me contento com ter seu número na agenda
[viro no travesseiro resignado e durmo 
sem ter o que lamentar]

sábado, 31 de agosto de 2013

azul

A manhã entra em feixes na sala, amarelando moletons e mesas com livros. É ela que eu assisto sentada ao lado da janela, refletida no concreto do prédio em meio a chicletes rijos e marcas de chuva. Enfurnados nessa caixa de branco sujo, ô meu deus. Não é rebeldia, juro que não; antes o cansaço trazido por anos de receber conteúdo, receber, passiva num papel branco dizer que absorvi e que posso estudar no superior. Não vejo nada de certo em tudo isso. Talvez seja drama de momento. A certeza cada dia maior de que a vida está pra fora do vidro, da grade daqui e do calor represado entre as cabeças enfileiradas. O sol refletido no concreto já encurtou, metade sombra.
Fico fazendo hipóteses para as razões que te fazem sentar na minha rota, invento tua mente e entretida vejo o tempo passar... Não me machuco com a irrealidade das coisas que componho, porque são todas partes de uma imaginação e só. É passatempo; é tédio o que me faz contar as formigas na parede. Hoje posso dizer que é indiferente o conhecimento dos teus pensamentos. Não passa de curiosidade simplória, mimada. As razões que me mantêm distante são igualmente medíocres, mas me bastam. 
Nos dias em que tombo para o sentimentalismo barato, me seco inteira de choro porque tenho memória. Saudade, eu digo -- é uma das coisas mais simples de se confessar. Saudade de milhares de coisas, desde o teu cheiro até o bolinho que minha avó fazia quando eu era menor. A parte boa é o que eu prefiro cultivar, passando de leve voando pelas lembranças doídas. Leite derramado, o livro no meu colo. Não adianta mesmo...

terça-feira, 23 de julho de 2013

rendição


Os pés ultrapassam a cama, frios
largo o livro e conto os fios
vejo borrado e respiro ao
travesseiro
repasso o não dito e você:
o segredo dos olhos
o medo de nem sequer dizer que não
o esquecimento das nossas coisas mais lindas
e o modo leve como se refugia em meu ombro, abraçado
em desencanto

segunda-feira, 22 de julho de 2013

bruta flor

"Poderíamos morar no campo, adoro o campo. Uma casa de tijolos nus. Um gramado. Livros, música. Quero ler para você todos os poetas que amo, minha voz não é bonita mas aprendi ao menos a fazê-la grave, este natural esganiçado posso corrigir quando me esforço. Vão dizer, alienação, fuga. Diremos, integração, retorno. A nós mesmo. Ao sol. A Deus. Meu bilhete é decisivo, responda, escrevi um bilhete decisivo. Os bilhetes decisivos. Tudo somado, isto: eu te amo. Não uma simples amizade entre um homem e uma mulher, mas uma espécie de unificação, absoluta unidade harmônica neste mundo caótico. O sentido profundo."

Lygia Fagundes Telles

domingo, 12 de maio de 2013

quebram-se anéis

Engulo
   em goles
          a garrafa,
                g r a t a,
e ora rio, ora entalo a dor
que me aprontou.

Não tenho arrependimentos 
concretos, nenhum.
Se me machuquei foi por 
ter dado valor a um
mundo mais barato,
e está tudo bem.

Me guardo na cadeira do bar
ora sozinha, ora com eles,
movo o guardanapo molhado
mais pra esquerda.

Na calçada à noite ficam estampadas
sombras de um que não vejo quem.
A rua é a mesma mesmíssima por que
passei ao teu lado, uma vez e duas
e três e mais.
Guardo os beijos na memória
ou vice-versa
e é do que prefiro lembrar.

Me perguntam o que foi, murmuro que nada
porque não sinto vontade que seja
de me explicar.
Se perguntarem, diz que eu tô ali na esquina
agachada a um disco e o queixo deitado
nas mãos; escolho o silêncio no escuro
de um eu que me encontra no limpo
e hoje, sim:
largo a bandeja.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

poema de quinta


É primeiro dia póstumo.
A tarde faz sol e hortelã
e minhas últimas palavras
têm ecoado como manifesto
de ruptura e o ideal de esperar
nada de ninguém.
Foi como rasguei sorriso
em meio a água salgada,
quando parecia definitivo que
a dor sumisse aos poucos --
mas o [meu] coeur não bate
cartão.
Hoje me sento, agora, e olho
ao redor à procura de cabeças
que sumiram apesar do relógio;
não encontro o ponto onde jogar
meu olhar: o teu,
só pra dar uma de Chico
e queimar de tanto frio.
Não encontro,
subo as escadas.
O coeur espera mesmo livre,
espera vagabundo, Caetano.
Eu felizmente ouço as mesmas
músicas sem sentir dor
e se ela apertar eu grito de lá
da montanha que não,
que vá é pro inferno.
Eu deito, canto
e durmo.

sábado, 27 de abril de 2013

distância II

Eu às vezes contava de nós
e ouvia, para sua
desvantagem:
"você não merece
alguém
assim."
Hoje é noite e quer
saber?
Não
mereço mesmo.
Eu sou estúpido
sou f r i o
me ausento por dias e não gosto
de Shakespeare.
De você mereço

o esquecimento, amor
porque aqui foi o único lugar
em que te chamei assim:
"amor".

sábado, 20 de abril de 2013

distância

amor bate
em sua aorta
chico canta e ele
estremece
cultiva sensíveis minhocas
tatua all you need
is
love.

quanto a mim
a mim admira a frieza
e como escreve de tudo
menos de lá de
dentro.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

zebra, café e mel

sempre que te vejo aos picotes, coisa de dois ou quatro segundos, a coisa toda borra e fica em rodagem de filme antigo. dura eternidade.

encostada e ante as luzes vermelhas, me proponho -- que verbo ruim -- à reconstituição... momento terrível. lembro do azul queimado da sua blusa no pequeno aberto espaço, depois o cabelo e então o rosto: sem barba, meu deus. é mesmo. não é novidade, foi na última semana de março, mas não consigo evitar o estranhamento. se eu tivesse mais tempo de contemplação talvez me acostumasse.
a estranheza do abraço de passagem -- nem parece que aqueles corpos já se amaram, juntos juntos. da primeira visão ao toque seus olhos me percorreram em expressão que ainda não soube interpretar, e muito provavelmente não o farei. seria a minha pele com o, pasme, rosa queimado no pano? o aspecto de quem tem dormido mal? ou só o choque de sensações prévias naquele reencontro blitzkrieg... 
sim/não. rostos que não mais identificamos, ou caras cansadas da viagem, ou que de tanto pensamento perdem a expressão.
em retrocesso a cena me vem de um terceiro ponto, aquele que vê, e é assim tola como escrevo: de súbito olhos, de súbito coração, distância tocada, desencaixe, de súbito fim. 
- e ai... 
- oi. 
é só isso que sei dizer: oi. fico entre essa palavrinha e o "te amo. tchau." entre lamento e desapego, suor e tremor de frio. sou o pêndulo da literatura antes de achar um meio termo e parar o percurso em lugar saudável. isso tudo causa uma vertigem horrorosa, daquela do filme do hitchcock, de que agora você tem prova: versos emprestados aos montes, papel rabiscado e, mais ainda, estes olhos.

segunda-feira, 25 de março de 2013

sensorial

Por ora não quero o peso
de um mundo centrado;
aspiro antes à pena doce 
de debulhar nas folhas memórias
concretas ou inventadas,
no indicativo e com o devido
quase inefável sujeito:
amor

domingo, 10 de março de 2013

nota après le déluge


De repente a cama parece grande, mas não por sentir saudade. Estou no momento em que não sinto nada, assim de repente. Entendo por que todos desse discurso gostam do que fazem, dá um conforto e desprendimento tremendos, mas sentir sempre foi minha sina, meu passatempo, ópio, uma praga. Não se tira as coisas assim de alguém, senhor. 
Ouço o mesmo cd pela quarta vez no dia, há semanas que não sai do leitor do rádio. Se eu for parar pra incorporar as letras e traduzi-las, parecerão todas vazias porque só tenho uma imagem pra colocar nas menções em segunda ou terceira pessoa: você. Perde qualquer sentido. Mesmo as mais ácidas, neste momento nem essas quero te dedicar.
Amo a chuva que cai tranquila à meia noite, através da janela enquanto fico em pé na sala ouvindo as unhas da cachorra passearem pelo assoalho. Amo o som do violão, do caminhão de lixo que passa na hora em que pego no sono, amo o carbono que sai do meu lápis e fica no papel por mais ou menos tempo, amo o tato quando junta com olfato. 
Sinceramente a dor que por ora me resta é pouca, Drummond, nem desejarei o seu consolo na praia. Eu quebro a cara toda semana porque me entrego a tudo ou levo outras coisas a sério, fico lamentando a noite passada, o que torna tudo isso um desespero incrível: atirei um limão n'água, essa lua esse conhaque, devo seguir até o enjoo?, é noite no submarino, é a vida um suspiro sem paixão; nada, verso nenhum, meu deus do céu.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

tulipa em copo

Tal como o cubismo polifacetado em uma só dimensão, ela era o traço do desespero em tela de canvas. Perspectiva ampla e ao mesmo tempo perspectiva nenhuma -- mais ou menos como aquela linha tênue entre tudo e nada. Sentava no canto da sala, no canto das coisas, de onde obtinha completa observação e o recurso da periferia. Cruzou as pernas sobre a cadeira e se apoiou no livro aberto, alheia ao mundo e sabendo que ele não poderia sumir assim. Faca de dois gumes, e até lhe agradava a ideia do estranhamento. Imagens de flores escuras em meio a um campo russo de girassóis vinham à mente. Criava em torno de si uma aura oblíqua, de vagas em mar cor de chumbo. Nas pernas de índio esperou até a última chamada para fechar o livro e botar os pés no chão. O homem desceu de seu pequeno pedestal, deu uns passos para mais perto da menina, talvez por gostar de flor escura ou daquela aura de vaga em mar de chumbo. Pronto, e ela explodia como num auge de mazurka. Feliz pelas vagas funcionarem e com medo da iminente ultrapassagem da barreira do platonismo. Medo, sim senhor, cubismo em desespero juvenil. Sentia que os peixes no mar de chumbo nadavam só lá no fundo, onde humano não chega. O homem avançou a linha a fim de ver o livro que a fazia contorcer sobre o assento. Mazurka e um-dois-três, tá-tá-tá, tá-tá-tá, tá-tá-tá, tá-tá-tá... A menina fez em ato reflexo rosto assustado, pronto e repelente, olhar aflito gritante. Ação e reação: o azul dos olhos do homem brilhava, todo aberto, surpreso com a frieza da menina esquiva. Quanto a ela, deu por si em frações tardias de segundo.
- Só queria ver o que estava lendo, ele soltou, como quem se desculpa por violação estrangeira.
Ela assentiu, lançando mão de todo o esforço facial para reaver a aura de vaga de chumbo, desfazer a desfeita. O livro, guardado; bufou para si mesma em martírio latente. Agora fugia para um noturno. Não curava seu ar afobado e não sabia se no fim das contas o homem tinha visto o título ou, quem sabe, o autor. Ela era assim, entre semibreve e semifusa, num salto variável, prezava a perfeição do desconhecido e justamente por isso moldável. A aula seguiu, se já não havia começado. Cegava a fumaça, caía o prato.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Deixei o bluebird sair por um momento. Não voa desde o início dos seus tempos, sentiu sua primeira paisagem bonita; mostre o bico, algumas penas, os globos, vá. Mostrou como quem não mostra, os olhos no espelho e os reflexos vendo outros reflexos, mas ali ele estava: fora do tórax. E se o que viu do outro lado do espelho não passou de decepção risível, voltou pra gaiola óssea sem arrependimentos. Perdera o medo de transbordar quando fosse preciso e sobretudo sincero, independente do fruto podre que recebesse em retorno de uma árvore outrora tão verde. C’est la vie, diriam. Pensei, pensou, pensamos, chorou, até que cantou hoje no meu ouvido um negocinho na voz de fiapo de algodão: é um outro bluebird que não sai. 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

elegia

Mulher, o cabelo já arrumei
e do carro cuido bem há anos
na doce intenção de levar 
ao cinema aberto a tal.

A tal, e qual? vieram morenas,
louras, branquelas, donzelas,
e de todas elas
ganhei os pedaços do negativo
do seu todo retrato.

Mulher, já vi nos seus olhos tanto brilho
que eu andarilho até parei;
início então à narrativa carmim 
que corre entre dois.

E se hoje o pó mágico baixou, mulher
dos nossos olhares,
digo que a culpa é de ninguém.

Seu zodíaco já li e reli,
comprei rosas como fazem nas
películas,
esboço uma carta, mulher, de amor
p'ra ver se revive o gosto de sonho
que tinha nosso arroz e feijão.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

1 + 1 = 1


Quebrou o jejum, quem diria, de meses
aquela noite: chorou.
O que começou com razão
tombou pro outro lado,
como já sabia ser usual.
Fossem as lágrimas quentes,
e fosse bom enxugar os olhos,
e sentir no peito tudo, tudo
que não o vácuo, persistiu,
esperando o sono com a
placa: adeus,
fronha árida.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

jai guru deva om

dizem que se existe
diabo,
então existe deus.

fiz pra mim um canteiro
infante, em semente,
sob sombra e luz do sol.
a cerca tem frestas,
tem buracos,
e no entanto segura os
cachorros do vizinho.

a rede pra pegar borboletas
já larguei.
tenho nas mãos um regador,
uma pá e dez
unhas.
trago gosto de pólen
e praguicida
sem linha de fabricação.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

complexo de épico

esqueci, amor, que
não dá o braço a torcer:
chora sério
ri sério
vive sério
ama sério
brinca sério
mata o vazio com pontos
e retas retangulus complexandus
esqueci, amor, que tá subindo
o cadafalso
que te parece a glória eterna
das praças dos bacanas de sorriso
colgate
mas fica calmo, amor
a corda cabe no teu pescoço

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

a rainha está morta

- aperta a droga do off!
- off? existe?
- é, pra esquerda.
- aqui?
- tá esquentando.
- essa droga existe?
- bingo!
e pulei.
deu num escuro todo e aquele vento frio que sopra e levanta o cabelo. eu caía sem previsão ou pistas, mas também não estava nem aí. o off já entrava na cabeça, um cheiro estéril e frio. 
BUM
caí dura num chão mole, sem pensamento algum. então é esse o off?
delícia. 

no meu último suspiro consciente, apostei com meu umbigo que o cara lá em cima iria fazer o teste depois. tudo que tínhamos no bolso, fechado? fechado.
enchi meus dois.

quem sabe consigo comprar uma bengala nova.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

da latência

e como fosse noite amena
e o som estivesse alto nos ouvidos
como marco concreto do meu mental
incômodo,

e o vazio preenchesse
o cômodo
e o meu peito, causando assim um
desespero discreto e amargo,

com a única certeza esta: a culpa
e cura e jura recaem sobre mim;

fosse mesmice atordoante e o silêncio
alto das nossas bocas,
deito-me no escuro e o refúgio é o

sempre:
papel

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

alguma coisa acontece no meu coração

são paulo sp
tão grande e cabe em duas letras:
ésse-pê
tão intraduzível e por isso tão cheia
nas letras de música
a cidade mais avesso do avesso do avesso
que me cheira a dinheiro e miséria
e produto de limpeza
tão pisada por tantos pés, sampa
ésse-pê sp
cidade sem cristo, dizem que sem amor
sem outdoor
sem vazio informativo
spspsp ésse-pê sem cristo
fundada por missionários, sem cristo
será por isso tão grande e concreta
e difusa
discreta
dejeta de ralos maiores
das ilhas de poesia quase que transparentes
antes do estalar dos dedos
ésse-pê, ésse-pê
esse pé
esse pé que eu piso e que pisa em
sp
sem cristo, liberdade
todos livres na avenida de carros e antenas
escravos do medo-faísca
do vazio e da cidade sem cristo
que eu encho de proparoxítonas sem fim
trânsito público tráfico rápido bêbado
sólida música máquina mágica
fenômeno
sp