domingo, 12 de agosto de 2018

oxigênio

o som da minha vó é o som que ela respira
forte e breve e curto e por favor
eu tento mas o ar não chega
acho que é porque quebrei o nariz, ela diz
falta de ar é porque tem ar demais
ela diz [minha tia que disse]
e o ar não sai

o som da minha vó é o som que ela respira
depois de arrastar dois passos ela respira
e fala fraca e breve e curta meu deus
o ar não sai

o som da minha vó é o som que ela respira
e dá de comer à lua a cachorra
que nunca come quando pedem
não dá carinho quando pedem
não deixa encostar

minha vó conversa com a lua
sem ar sobre as mesmas coisas
chama a lua de traste meu amor
vem nanar -- e a lua vai
de patinhas fazer eco
pro som que minha vó respira

o som da minha vó é o som que ela respira
quando diz por trás da porta boa noite
e eu ouço o som do ar
que sai


sexta-feira, 27 de julho de 2018

Um frio muito fino

[ trechos de Adília Lopes, Antologia Poética,
para ler com a voz em Portugal:  


Eu julgava que aquilo era
um Luna Parque
saía-se como se entrava
e não acontecia nada irreversível durante
é o que é um Luna Parque
quando se é adolescente
mas não
quando dei por mim
já lá estava dentro
e não me lembrava
de ter entrado
quando disse agora quero-me 
ir embora
riram-se ah minha rica
deste Luna Parque não se sai
quem cá vem não volta
não se volta atrás
então comecei a pensar
que ia passar o resto dos meus dias
no Luna Parque
acabas por aprender vais ver
a fazer das tripas coração
habituas-te vais ver 
nos primeiros tempos dói
dá vontade de vomitar
depois percebe-se que
no Luna Parque que é
um sítio triste
pode não se ser triste
sai muito caro
mas poder pode-se

*

A minha Musa antes de ser
a minha Musa avisou-me
cantaste sem saber
que cantar custa uma língua
agora vou-te cortar a língua
para aprenderes a cantar
a minha Musa é cruel
mas eu não conheço outra





tu dizes que não tens remorsos nenhuns
porque dizes que és um vil criminoso
para mim
eu também sou uma vil criminosa
mas não para ti
desconfio que tens o remorso
de ter alguns remorsos
por me teres feito mil maldades
e uma maldade muito grande
a maldade muito grande está feita
e não se faz
acho que essa maldade muito grande
nos aproximou um do outro
em vez de nos afastar
mas para mim é um drôle de chemin
e para ti também deve ser
mas com um vil criminoso nunca se sabe

*


escrevia os teus ossos e os teus olhos 
evito escrever 
e vivo como escrevo


*

Por que precipícios e abismos
andou Maria Cristina
para conseguir aquela fotografia? 

*

Pois passara noites e noites a sonhar
que não se conseguia acabar de vestir 
nunca



Ah quem me dera um vestido
que me queimasse

*

Quem me dera uma morte 
como a de Don Juan
ah uma mão que me puxasse
para o escuro

*

Maria Cristina espera
por Guilherme
mesmo quando não tem
nenhum encontro marcado
com ele

*


Podia ser muito feliz
se não fosse muito infeliz


Maria Cristina cansa-se
a contar anedotas
ou a sua vida
a si mesma


Minha querida Cristininha
há horas difíceis
como dizem os cauteleiros
ou os Tampax

*

Afinal não queria matar Guilherme
queria salvá-lo de morrer afogado
dando por ele a vida
numa troca complicada de reféns


Tem frio
um frio muito fino


Chamo-te Maria Cristina
como te chamas, Maria Cristina?


Talvez que tudo se deva
a ter passado o dia
com um sapato de verniz apertado



Tempo de foder
tempo de não foder
saber gerir
os tempos
compor
saber estar sozinha
para saber estar contigo
e vice-versa
aqui estão as minhas contas
do que foi



Eu no espelho
colada com cola
mais bela
do que dantes
como o prato Zen
que tem as fracturas
sublinhadas
com ouro
obra da fortuna
má e boa
obra da falta de afecto
e do afecto
Narciso e anti-Narciso
viver para crer 



O poema
é mais emblema
que lema
no meu deixo
uma lesma
sempre a mesma
lesma é o meu lema 

*

Por que não deixa de escrever
e passa a dizer Tchau?

*

Mesmo que pudesse 
dizer tudo
não podia dizer tudo
e é bom assim

*

Os dias vão-se 
eu não

segunda-feira, 16 de julho de 2018

quando um filme queima

nunca se sabe quando
um lampejo na corrida
rasgará a imagem pelo meio
dos olhos; bolhas
quentes; matéria
branca
e o mais preto silêncio
quando morre a parte de um filme

quarta-feira, 20 de junho de 2018

sábado, 16 de junho de 2018

movimento

no meu corpo a palavra oxigênio
é um quase encher
virar voz
suspiro longo
subida de balão

           [cutuca
                    as costelas]

terça-feira, 15 de maio de 2018

há algo de estranho


josef koudelka

E X Í L I O S







quarta-feira, 2 de maio de 2018

terça-feira, 1 de maio de 2018

sem essa


olha, não é nada disso - embora eu não saiba dizer mais nada
mais nada além
das coisas que sempre ficaram caladas
olha
não é nada disso

é fácil entender - ela só veio para me dizer
adeus

mas o que eu queria mesmo era
não ter mais tempo
pra me comover

mesmo assim
fiquei pensando que
a gente podia viajar
e fazer um álbum de fotografias
pra depois queimar e depois lembrar queimar
tudo
tá indo tão depressa
e não tem mesmo outro jeito - mas quanto ao resto,

não
não é nada disso

embora eu não saiba dizer mais nada



sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

ilma



onde é que estamos
onde é que estão as placas 
será esta a mesma estrada
ela pergunta
à estrada

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Como se fosse a casa

((( poemas de Ana Martins Marques

Ensinam algo
as estrelas
sobre a distância 
algo sobre o pequeno atraso
a pequena demora 
que é a leitura

*

Ela comprou material de limpeza
e umas cervejas
e um whisky
ela nunca bebe whisky
e enquanto toma as cervejas
pensando que não basta se mudar
para mudar
ela pensa na mulher que ela seria
se morasse de fato ali
se aprendesse mesmo a beber
sem desmoronar dentro do próprio vestido
se adestrasse os olhos naquela paisagem
clara e áspera
e incorporasse ao seu corpo
os imensos barulhos da noite

*

(Se ao menos fosse possível saber
se voz ou microfonia
rota ou rotina
êxtase ou engano
sentir é um sítio difícil
permanecer é um périplo)

*

Apenas ficar aqui
por força ficar aqui
até que a palavra morar
faça sentido



As crianças não se cansam
esgotam suas energias, caem
dentro do sono
o cansaço é o fim da infância 
pode ser que seja assim
só para elas
exista a casa 
absolutamente



Coisas que o regulamento não diz:
é preciso acreditar no poder
da paisagem
aprender a ser
em sigilo



A impressão de que as coisas estão se tornando memórias 
rápido demais a certeza de que deveria ter pedido açúcar
ao vizinho e não a você a delicadeza dos gestos 
que evitamos a cegueira do desejo os lugares
onde não chegam as palavras como os cantos
que as vassouras não alcançam



aprender uma língua, conhecer
uma pessoa
que não quer se deixar conhecer
o limite de uma língua
é outra língua?
é sempre a primeira
a última noite 

*

(Entre tantas coisas 
numa separação 
é também uma língua
que se extingue)



Aqui se está 
o mais longe do cavalo
o mais longe da árvore
saber que o concreto enlouquece
que as pessoas se desgastam
racham, acumulam
sombra
que o cimento sonha, as pessoas
trincam
por solidão
saber que nem se pode
puxar pelos cabelos o pensamento

*

Ela imaginou que ali seria um bom lugar
para não pensar tanto em si mesma
prestar mais atenção
no mundo
um novo contrato com as coisas
ela pensou, talvez,
seguir rigorosamente o regulamento
de um prédio (isso se parece
com um plano)

)))

terça-feira, 3 de outubro de 2017

6232-10

- A pergunta que não quer calar. Por que essa placa de ônibus estava embaixo da sua mesa?

Meu chefe não me sauda com boa tarde, nem dá tchau. Ele faz a pergunta que não quer calar. Melhor essa do que as outras: por que atraso, por que calo, por que eu, etc. Por que existem placas de ônibus sozinhas na calçada, por que noto as placas de ônibus sozinhas na calçada, por que recolho a placa sozinha perfeita do 6232-10, por que deixo a placa aos pés da mesa como decoração corporativa, por que deixo a placa aqui dias, dias, dias, por que encostam a placa na janela e ali fica dias, dias, essa placa do 6232-10.

Disse o Bruno que eu encontrei uma raridade. Que o 6232-10 tem frota nova, modesta, espaçada, laranja; improvável subir num 6232-10, imagine então resgatar uma placa do 6232-10 derramada na avenida. 

Vila Ida/Metrô Barra Funda. Não sei onde fica Vila Ida, mas acho suave e corajosa. Ida era o nome da minha primeira professora de francês. A ida vai logo pela Pacaembú, apesar de tudo que rege a língua portuguesa. Mais do que bu: bú.  

Dentro do metrô carregar em um braço a mochila e na outra, Vila Ida. Barra Funda. Depositá-la no canto do quarto e ali ficar dias, dias, dias à espera de prego, feeling torto de decoração ou uma parede enorme como Ida.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

poema em linha torta

um absinto em lisboa
será que sou
fernando pessoa

domingo, 17 de julho de 2016

peste vulcânica

engendrar a peste
pela garganta tecer
a peste fazer um
alarde

depois cuspir
a peste fumar um
cigarro lavar o corpo
da peste assistir
bombardeios

apagar as pegadas
da peste engendrar
outra peste

quinta-feira, 7 de julho de 2016

tudo em mim é água

Teu silêncio
me inunda.

Ensaio cartas ao gravador
Apago.
Já não faço
mais fotografias.

Tempo tirou-me
para jejum.

Se mais lembro o mar
mais ele perde os contornos
da memória.

Vou ao wikipédia
google imagens:
Mar.

Me inunda
teu silêncio.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

fullgás

"De onde você veio?", pergunta que não se pergunta nem se responde, mas se transita. Por isso existe o corpo que diz: não vim, estou. E te olho nos olhos pois tens olhos limpos. Como na pose do Guerreiro II em que se flexiona, espeta o ar presente e respira: coragem.

sábado, 2 de julho de 2016

telescópio

falo de ti como de uma estrela:
teu rastro a 250 anos-luz
esconde todos os
250 anos que não vi passar

-* se estrela vive
se estrela apaga -     ?
                            *   ..
                                   ... . .
falo de ti como de uma estrela
à prova
de foguetes

sexta-feira, 1 de julho de 2016

na tua casa tem janelas

eu queria, como ele e ela, puxar e falar pelos cotovelos assim debaixo duma árvore em cidade longe, coração imenso, falar como é que te gosto tanto, tem um minuto para ouvir a palavra de?, chorar souvenirs de vez em quando chorar sem lencinho de papel, encher-te de beijos piadas, eu queria, como ele e ela, olhar-te criança guardar toda essa alma, guardar-te as flores que penderam dos galhinhos, escrever-te uma carta um livro um café, distribuir de manhã os souvenirs, sem que você soubesse, espalhar teus retratos nos postes livros públicos até esquecer o que estou fazendo e depois esquecer que nome é o meu, porque o que é meu não existe,
eu queria, como você, ser beijo do mar

sábado, 4 de junho de 2016

isadora

ela entende como se instala o peso no corpo
ela entende como se desinstala

segunda-feira, 9 de maio de 2016

III

do coração 
pedi-lhe 
rigor numérico

e deu-me:
números
nu v e n s

terça-feira, 3 de maio de 2016

II

avelima hoje
me acenou
feito miss
disse bom fim de semana

bom fim de semana

avelima sabe
que sou séria
falo ao telefone
uso saias pego café
[quando não

mais

avelima vem
todo de preto
todo cortado
todo do avesso

bom fim de semana

avelima não sabe
que não sou séria
meu tchau tem
aproximadamente dois quilômetros
de dentes ratos
y letrinhas
que viram
poemas

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Avê Paisagem

No Nordeste todo Severino é Bill, ele conta cantado, sangue e pele da Paraíba. Severino, Severina, é tudo Bill. Avelima tem essa voz que faz querer sair voando desta cidade numa paz de Bill só. Pisa na linha e elegante e pisa tão música. Mar. Deve haver muito mar se o homem continua homem apesar da caixa de entrada, motorista, reunião, secretária, agenda telefônica, passado, futuro, sala individual. Não sabia que existia sala com nome bonito assim. Tem tanta gente que passa no corredor. Quando ele passa eu vejo. 
- Meu nome é Severino. Mas pode me chamar de Billzélia!

domingo, 27 de março de 2016

easy


onde queres lei
eu leio fora


quinta-feira, 24 de março de 2016

h a j a

quisera preencher as horas q rastejam com 
pés descendo dos céus: realizar dizer q
chegamos

contribuir milionariamente com 
cansaços inaudíveis vírgulas 
emails baratos sedes
insaciadas manhãs
súbitas
pretéritos
por chegar

da janela uma vista infalível

concreto q se alimita desejoso:
perigo risco de morte não
pule o muro


o expediente me come os dedos do piano
as pernas esqueço q as tenho: toneladas
amar o trem q é infalível
esquecer o trem q é infalível:
desembarcam neste momento nove
centos novos passos
cansar as costas
criar calos nos ouvidos de rádio
ralho


- o céu desconhece todas estas guerras -
assombrar-se com o ponteiro onde cabe
toda uma população de orgasmos sonos sangues
casos atos políticos
simultâneos
e regimes e rios q se findam
sem anúncio



desembarcaram cerca de quatro
mil quinhentos um passos:
e eu:
imóvel

o ar esqueço q o faço: haja

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

atropelo

dizer que os atrasos estavam perdoados e também a inércia: os encontros perdidos só poderiam mesmo terem sido perdidos: o fato é sabido, as pernas é que engancham: mas sabem: há coisas que se dizem d'outro modo: vou sentir e sinto os teus pés virgens explorando o cascalho pernambuco como se fossem meus: te forrarei de cartas sobre nada, porque crescer é um nada, talvez com mais contornos: talvez demais: obrigada por não sabermos de nada, senão disto: hay que andar y doer: decidimos às 17h27 abolir todos os contornos: água

domingo, 21 de fevereiro de 2016

nós

gestos como saudade
do que um dia se chamou
desejo

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

carnaval é questão de pele

rebeca faz ângulos pontiagudos
pernas solares olhos pano pretos
preciosos
a cabeça milimetricamente desafio
uma pena que pende até o seio:
lágrima do desejo

o copo é mero charme rebeca sabe
rebeca nasceu cheia
mergulh
ável

eu viveria na imagem mil anos
cheiro rosa-choque ventre verde-
mar
cantar que sim
é hoje o fim dos tempos
nada cura o corpo que sabe
tudo rebeca
sabe

eu passo mansinho
                   / vulcão \
                                  )

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

fim de tarde 29 graus

começo de chuva na região da praça panamericana
a reportagem contabilizou sem rigor:
21 guarda-chuvas abertos
44 pedestres descobertos
(talvez sem guarda-chuva na bolsa
talvez com guarda-chuva na bolsa)
6 ciclistas
1 mulher de sacola na cabeça
e aqueles 7 preciosos com o guarda-chuva hesitante na mão
entendendo que chuva é de chover


a reportagem não abriu o guarda-chuva
a chuva não lavou esse cheiro de
carro

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

água

posso aplicar uma injeção de ânimo? pode. fecha os olhos. quando precisar me chama, dr armando, e abraçou como se fosse ele o afogado. certo. e atenção agora: tira o fantasma da cabeça, profético, direto, pra bom entendedor meia. basta. fiz que sim entendida, com os pés já do outro lado da sala. feito areia. água. ele viu o fantasma, qual será a cara. o cheiro. a voz insistente. ele. teria me contado, sei, falado o mundo. não fosse esse hábito. rapidíssima. viver como quem some.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

terça-feira, 14 de julho de 2015

abaixo

a poesia clt + seguro saúde
a poesia cartão de visita
a poesia patrocínio
a poesia att.
segue em anexo
a poesia análise sintática
a poesia fica reflexão
a poesia bate cartão
a poesia hum-hum
a poesia treva
melancolia em que caio
PROFUNDAMENTE
a poesia institucional
a poesia carente
a poesia no espelho
você já curtiu o Poeta hoje?
a poesia paga imposto
a poesia tem hora marcada
a poesia certificada 
com carimbo
na sala de espera
tie and quiet
a poesia referencial
a poesia mofo
anti geração
a poesia que rima
a poesia que mede
a poesia curricular
desde 2004 até 1837
sou Poeta 
e fujo

domingo, 12 de abril de 2015

compro

garrancho novo
desses que tombam para o lado
fazem música de
recados banais

garrancho inédito
anônimo
que se declare para célia
mara ruth almir roberto paiva
nos discos de 1982
à venda no centro

garrancho assumido
que deslize a curva do S
e invada com um til
o coração

garrancho sem medo
de ser só garrancho

sábado, 31 de janeiro de 2015

eu, luto

portugal fugiu pra guanabara
mas será sempre portugal

eu ando os mesmos passos que roberto
gravata, morte e dona paixão
mas não sou nenhum
“dylan despedaça meu
coraçãozinho”, eu segredo
ao homem do violão elétrico
que ao contar metal dará com
coraçãozinho despedaçado
em tinta azul

eu sento os mesmos troncos que casal
gravata e wagner ubatuba
e ouço wagner ubatuba dizer
desdentado os mesmos fantasmas:
distância 
ganância
sp
mal assopra as velas 
e te lembram o podre
                        (ou aquariana solta 
                      orgulho astral do teu 
                                    s k y l i n e)

a rua é habitada por 
olhos que têm medo de olhos
eu levo as mãos à cabeça qual sylvia,
monica e miss lonely
por saber que a guanabara
guarda o mesmo d. joão de portugal

antigamente as palavras
saíam desmedidas e eu fazia retratos 
sem saber que atestava
a ilha da existência
titubeio e vou às mesmas projeções que casal,
larissa e professora universitária
eu que gosto da tortura 
da memória 
caso alguém me veja, diga que estou viva
estou viva e uso poá
que estou sem você hoje
também ontem, também 
amanhã
já estou sem estômago
pros pigarros alheios, já aprendi
a chorar no banho
já sei das mãos atadas
e não posso anunciá-lo:
certos anúncios vêm do silêncio

você fugiu pra guanabara
e será sempre silêncio
de nada serve boa tarde,
boa sorte, se afogue no inferno
paulo mendes morreu mas bordou
este desencaixe
e quem somos nós depois de
paulo mendes?

eu luto sem diagnóstico
você é imóvel, catalogado
afogado no inferno
da guanabara

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

na janela do ônibus que me leva ao mesmo lugar de todos os tempos
pensei meu rosto que hoje traz sombras de sono debaixo dos olhos
esse peso cínico que cai na minha boca desenhada quando sorrio
e vejo que não tem porquê;
no espelho não sei se minha sobrancelha traz algo novo no fato de
não te amar