terça-feira, 2 de maio de 2023

som

ele deve ter visto o sorriso que abri
com o som que saía nos ouvidos
eu que já não ando sorrindo
grande coisa esses dias
ele deve saber

só eu que tô ouvindo isso?, perguntei
ele disse que sim e
eu arreganhei o sorriso
ele deve ter visto

deve ter visto que os meus dedos
riam passeando pelo braço
chegavam até os ouvidos
rasgavam um sorriso 
em todo o rosto

ele deve ter visto que
eu via um som lindo
saindo dos meus dedos

deve ter visto tudo isso quando
deu um pedaço de si, os fios
o caminho para a eletricidade
e falou: leva 
pra casa

ele deve ter visto que assim me dava
um sorriso pra repetir à noite
mover o que já não se move

ele deve ver isto agora

(veremos)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

mormaço queima

ficar de pé na quina
da escada: docas
d'onde ver o tempo
o medo o raul chegar
mais gordo o bruno chegar
sempre magro o tempo
arder; docas d'onde
ser um anjo; asas
do desejo; ouvir
a voz do tempo:
já é seguro
descer? daqui
esperar o tempo que
derrete minha pele
furinhos na minha pele
nenhum sinal de
você; ficar
bem quietinha ver
e não ser vista senão
como dúvida; sopro
miragem; ficar
bem quietinha do alto
olhar pra baixo dói
o pescoço; olhar
pra frente; força
sensível no topo
da cabeça; subir
onde tem ar

domingo, 13 de janeiro de 2019

35ºC

há muito tempo não escrevo
um poema este me saiu
por transpiração

domingo, 12 de agosto de 2018

oxigênio

o som da minha vó é o som que ela respira
forte e breve e curto e por favor
eu tento mas o ar não chega
acho que é porque quebrei o nariz, ela diz
falta de ar é porque tem ar demais
ela diz [minha tia que disse]
e o ar não sai

o som da minha vó é o som que ela respira
depois de arrastar dois passos ela respira
e fala fraca e breve e curta meu deus
o ar não sai

o som da minha vó é o som que ela respira
e dá de comer à lua a cachorra
que nunca come quando pedem
não dá carinho quando pedem
não deixa encostar

minha vó conversa com a lua
sem ar sobre as mesmas coisas
chama a lua de traste meu amor
vem nanar -- e a lua vai
de patinhas fazer eco
pro som que minha vó respira

o som da minha vó é o som que ela respira
quando diz por trás da porta boa noite
e eu ouço o som do ar
que sai


sexta-feira, 27 de julho de 2018

Um frio muito fino

[ trechos de Adília Lopes, Antologia Poética,
para ler com a voz em Portugal:  


Eu julgava que aquilo era
um Luna Parque
saía-se como se entrava
e não acontecia nada irreversível durante
é o que é um Luna Parque
quando se é adolescente
mas não
quando dei por mim
já lá estava dentro
e não me lembrava
de ter entrado
quando disse agora quero-me 
ir embora
riram-se ah minha rica
deste Luna Parque não se sai
quem cá vem não volta
não se volta atrás
então comecei a pensar
que ia passar o resto dos meus dias
no Luna Parque
acabas por aprender vais ver
a fazer das tripas coração
habituas-te vais ver 
nos primeiros tempos dói
dá vontade de vomitar
depois percebe-se que
no Luna Parque que é
um sítio triste
pode não se ser triste
sai muito caro
mas poder pode-se

*

A minha Musa antes de ser
a minha Musa avisou-me
cantaste sem saber
que cantar custa uma língua
agora vou-te cortar a língua
para aprenderes a cantar
a minha Musa é cruel
mas eu não conheço outra





tu dizes que não tens remorsos nenhuns
porque dizes que és um vil criminoso
para mim
eu também sou uma vil criminosa
mas não para ti
desconfio que tens o remorso
de ter alguns remorsos
por me teres feito mil maldades
e uma maldade muito grande
a maldade muito grande está feita
e não se faz
acho que essa maldade muito grande
nos aproximou um do outro
em vez de nos afastar
mas para mim é um drôle de chemin
e para ti também deve ser
mas com um vil criminoso nunca se sabe

*


escrevia os teus ossos e os teus olhos 
evito escrever 
e vivo como escrevo


*

Por que precipícios e abismos
andou Maria Cristina
para conseguir aquela fotografia? 

*

Pois passara noites e noites a sonhar
que não se conseguia acabar de vestir 
nunca



Ah quem me dera um vestido
que me queimasse

*

Quem me dera uma morte 
como a de Don Juan
ah uma mão que me puxasse
para o escuro

*

Maria Cristina espera
por Guilherme
mesmo quando não tem
nenhum encontro marcado
com ele

*


Podia ser muito feliz
se não fosse muito infeliz


Maria Cristina cansa-se
a contar anedotas
ou a sua vida
a si mesma


Minha querida Cristininha
há horas difíceis
como dizem os cauteleiros
ou os Tampax

*

Afinal não queria matar Guilherme
queria salvá-lo de morrer afogado
dando por ele a vida
numa troca complicada de reféns


Tem frio
um frio muito fino


Chamo-te Maria Cristina
como te chamas, Maria Cristina?


Talvez que tudo se deva
a ter passado o dia
com um sapato de verniz apertado



Tempo de foder
tempo de não foder
saber gerir
os tempos
compor
saber estar sozinha
para saber estar contigo
e vice-versa
aqui estão as minhas contas
do que foi



Eu no espelho
colada com cola
mais bela
do que dantes
como o prato Zen
que tem as fracturas
sublinhadas
com ouro
obra da fortuna
má e boa
obra da falta de afecto
e do afecto
Narciso e anti-Narciso
viver para crer 



O poema
é mais emblema
que lema
no meu deixo
uma lesma
sempre a mesma
lesma é o meu lema 

*

Por que não deixa de escrever
e passa a dizer Tchau?

*

Mesmo que pudesse 
dizer tudo
não podia dizer tudo
e é bom assim

*

Os dias vão-se 
eu não

segunda-feira, 16 de julho de 2018

quando um filme queima

nunca se sabe quando
um lampejo na corrida
rasgará a imagem pelo meio
dos olhos; bolhas
quentes; matéria
branca
e o mais preto silêncio
quando morre a parte de um filme

quarta-feira, 20 de junho de 2018

sábado, 16 de junho de 2018

movimento

no meu corpo a palavra oxigênio
é um quase encher
virar voz
suspiro longo
subida de balão

           [cutuca
                    as costelas]

terça-feira, 15 de maio de 2018

há algo de estranho


josef koudelka

E X Í L I O S







quarta-feira, 2 de maio de 2018

terça-feira, 1 de maio de 2018

sem essa


olha, não é nada disso - embora eu não saiba dizer mais nada
mais nada além
das coisas que sempre ficaram caladas
olha
não é nada disso

é fácil entender - ela só veio para me dizer
adeus

mas o que eu queria mesmo era
não ter mais tempo
pra me comover

mesmo assim
fiquei pensando que
a gente podia viajar
e fazer um álbum de fotografias
pra depois queimar e depois lembrar queimar
tudo
tá indo tão depressa
e não tem mesmo outro jeito - mas quanto ao resto,

não
não é nada disso

embora eu não saiba dizer mais nada



sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

ilma



onde é que estamos
onde é que estão as placas 
será esta a mesma estrada
ela pergunta
à estrada

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Como se fosse a casa

((( poemas de Ana Martins Marques

Ensinam algo
as estrelas
sobre a distância 
algo sobre o pequeno atraso
a pequena demora 
que é a leitura

*

Ela comprou material de limpeza
e umas cervejas
e um whisky
ela nunca bebe whisky
e enquanto toma as cervejas
pensando que não basta se mudar
para mudar
ela pensa na mulher que ela seria
se morasse de fato ali
se aprendesse mesmo a beber
sem desmoronar dentro do próprio vestido
se adestrasse os olhos naquela paisagem
clara e áspera
e incorporasse ao seu corpo
os imensos barulhos da noite

*

(Se ao menos fosse possível saber
se voz ou microfonia
rota ou rotina
êxtase ou engano
sentir é um sítio difícil
permanecer é um périplo)

*

Apenas ficar aqui
por força ficar aqui
até que a palavra morar
faça sentido



As crianças não se cansam
esgotam suas energias, caem
dentro do sono
o cansaço é o fim da infância 
pode ser que seja assim
só para elas
exista a casa 
absolutamente



Coisas que o regulamento não diz:
é preciso acreditar no poder
da paisagem
aprender a ser
em sigilo



A impressão de que as coisas estão se tornando memórias 
rápido demais a certeza de que deveria ter pedido açúcar
ao vizinho e não a você a delicadeza dos gestos 
que evitamos a cegueira do desejo os lugares
onde não chegam as palavras como os cantos
que as vassouras não alcançam



aprender uma língua, conhecer
uma pessoa
que não quer se deixar conhecer
o limite de uma língua
é outra língua?
é sempre a primeira
a última noite 

*

(Entre tantas coisas 
numa separação 
é também uma língua
que se extingue)



Aqui se está 
o mais longe do cavalo
o mais longe da árvore
saber que o concreto enlouquece
que as pessoas se desgastam
racham, acumulam
sombra
que o cimento sonha, as pessoas
trincam
por solidão
saber que nem se pode
puxar pelos cabelos o pensamento

*

Ela imaginou que ali seria um bom lugar
para não pensar tanto em si mesma
prestar mais atenção
no mundo
um novo contrato com as coisas
ela pensou, talvez,
seguir rigorosamente o regulamento
de um prédio (isso se parece
com um plano)

)))

terça-feira, 3 de outubro de 2017

6232-10

- A pergunta que não quer calar. Por que essa placa de ônibus estava embaixo da sua mesa?

Meu chefe não me sauda com boa tarde, nem dá tchau. Ele faz a pergunta que não quer calar. Melhor essa do que as outras: por que atraso, por que calo, por que eu, etc. Por que existem placas de ônibus sozinhas na calçada, por que noto as placas de ônibus sozinhas na calçada, por que recolho a placa sozinha perfeita do 6232-10, por que deixo a placa aos pés da mesa como decoração corporativa, por que deixo a placa aqui dias, dias, dias, por que encostam a placa na janela e ali fica dias, dias, essa placa do 6232-10.

Disse o Bruno que eu encontrei uma raridade. Que o 6232-10 tem frota nova, modesta, espaçada, laranja; improvável subir num 6232-10, imagine então resgatar uma placa do 6232-10 derramada na avenida. 

Vila Ida/Metrô Barra Funda. Não sei onde fica Vila Ida, mas acho suave e corajosa. Ida era o nome da minha primeira professora de francês. A ida vai logo pela Pacaembú, apesar de tudo que rege a língua portuguesa. Mais do que bu: bú.  

Dentro do metrô carregar em um braço a mochila e na outra, Vila Ida. Barra Funda. Depositá-la no canto do quarto e ali ficar dias, dias, dias à espera de prego, feeling torto de decoração ou uma parede enorme como Ida.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

poema em linha torta

um absinto em lisboa
será que sou
fernando pessoa

domingo, 17 de julho de 2016

peste vulcânica

engendrar a peste
pela garganta tecer
a peste fazer um
alarde

depois cuspir
a peste fumar um
cigarro lavar o corpo
da peste assistir
bombardeios

apagar as pegadas
da peste engendrar
outra peste

quinta-feira, 7 de julho de 2016

tudo em mim é água

Teu silêncio
me inunda.

Ensaio cartas ao gravador
Apago.
Já não faço
mais fotografias.

Tempo tirou-me
para jejum.

Se mais lembro o mar
mais ele perde os contornos
da memória.

Vou ao wikipédia
google imagens:
Mar.

Me inunda
teu silêncio.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

fullgás

"De onde você veio?", pergunta que não se pergunta nem se responde, mas se transita. Por isso existe o corpo que diz: não vim, estou. E te olho nos olhos pois tens olhos limpos. Como na pose do Guerreiro II em que se flexiona, espeta o ar presente e respira: coragem.

sábado, 2 de julho de 2016

telescópio

falo de ti como de uma estrela:
teu rastro a 250 anos-luz
esconde todos os
250 anos que não vi passar

-* se estrela vive
se estrela apaga -     ?
                            *   ..
                                   ... . .
falo de ti como de uma estrela
à prova
de foguetes

sexta-feira, 1 de julho de 2016

na tua casa tem janelas

eu queria, como ele e ela, puxar e falar pelos cotovelos assim debaixo duma árvore em cidade longe, coração imenso, falar como é que te gosto tanto, tem um minuto para ouvir a palavra de?, chorar souvenirs de vez em quando chorar sem lencinho de papel, encher-te de beijos piadas, eu queria, como ele e ela, olhar-te criança guardar toda essa alma, guardar-te as flores que penderam dos galhinhos, escrever-te uma carta um livro um café, distribuir de manhã os souvenirs, sem que você soubesse, espalhar teus retratos nos postes livros públicos até esquecer o que estou fazendo e depois esquecer que nome é o meu, porque o que é meu não existe,
eu queria, como você, ser beijo do mar