quinta-feira, 15 de setembro de 2016

hora decubitus

Perdi o coração na praça Charles Miller, Mingus, Mingus, Mingus, Mingus, Mingus. Diz-se que quando mingua a lua também tem um quê de quando cresce. Quando cresce é toda essa vontade de vir a ser vontade de ser. Sufoca, encrava. A placa diz à esquerda: Angélica, a Uma, Angélica. Rodo o asfalto ainda habitado pelo teu rosto, os ratos, raios, reticências do teu asfalto. Se esta rua fosse minha, ela teria o nome da tua - eu sonho...

*

Rodo o asfalto que tem o teu nome, eu sonho. E quando o ônibus cai no túnel, poço paisagem, eu subo a tua rua. Correndo. Porque correndo chego sem fôlego ao quinto andar, desfaleço no capacho, enganada pelo doutor, louca, louca esburacada. Caio no poço de teu quarto: se existe poço, eu caio. E investigo o quão largo, cavado, rochoso, duro, doce deve ser cair. Cair mesmo. Assim duro de deixar roxo, branco, taquicardia, tremelique, trôpega, tudo bem? Tudo, meio tonta, tudo.    

*

No sono mais leve eu sonho melhor, porque sonho profana: porque sinto o chão, a fome e o motorista dizendo à cobradora que aqui batizo Maria: quando eu for dono de tudo eu te promovo, Maria, vou tirar você deste lugar. O motorista aqui eu batizo Odair, o Odair que me canta em apenas um fone, sempre manco de tudo.
Vou levar você pra ficar comigo...

*

E se existe poço eu caio, embora já não te diga mais nada. Hoje funciono em carta, nuvem, fumaça, vitória-régia. Eu que passo o dia engendrando quedas, quando caí pintei no poço o teu silêncio. Plúmbeo. Caí caída, cavada. E se aparece, te digo que nunca estive: saí correndo mais plúmbea ainda, fugida, Odair: venha já...  

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