sexta-feira, 15 de novembro de 2013

ao ido

ou "exposição"


Em outro dia da república, não havia erro nem esse mosquito rondava berrando a minha orelha. Acordara como quem não distingue ontem de sonho - e mesmo a vida não estava além de sonho. Virei todos os copos, chamei teu nome esperando que as paredes me abraçassem e o ar da noite chegasse mais doce no teu nariz. Implorei, naquele desespero vulnerável e sem vergonha da paixão embriagada. 
Aqui, a tarde é abafada e quase me faz esquecer de ódio ou televisão. Ainda uso aquela camiseta dos Smiths e chamo teu nome, mas apenas por permanência. Hábito inconsciente de fazer viver o passado no torto do travesseiro, nos profanos tropeços e na sede infinita. 
"Amarcord" não passava pra mim de uma das histórias que você contava, de braço enroscado na minha cintura enquanto eu nem prestava atenção no que não fosse instintivamente desnudo ou desafinado. Dizem que "mi recordo". Você dizia que não significa nada; repete mil vezes, repete até perder sentido. Hoje eu danço com os meninos na rua ao som de Nino Rota e mi recordo. 
Vou saindo do "tenho dezesseis anos, sou morena clara, atraente e sentimental" onde entrei sob teus olhos bobos. É que diante do amor escancarado pelas caixas de som e perpetuado nos bancos do parque só nos cabia a total submissão. Me render clandestina ao avesso desse sentimento que deixa tudo em todo lugar. 
Comemora-se a prisão do Zé Dirceu e dos outros antes como histórico fato que como fato histórico. Não acredito em ruptura, soberba, omissão, maniqueísmo; não me venha com canto de vitória. Hoje é dia da república - do amor? - que não foi.

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