sábado, 15 de setembro de 2012

TROPICALIZANDO

Andava por aí como o que seria London London - só, em paz, cruzando as ruas sem medo, estando aqui and it's okay. O calor derretia as minhas costas na Benedito Calixto e nem isso me incomodava. Havia discos e quadros, roupas, bibelôs e coisas antigas que me faziam imaginar ter dinheiro para tudo aquilo. A mochila pesava a coluna e as lembranças recentes estalavam na cabeça, esperando uma esquina ou outra para poderem gritar e esboçar um sorriso a força no meu rosto. Não tenho jeito.
Eram arredores coloridos e cheios através do vidro do ônibus, a vida parecia ter sentido sem tê-lo e o sol pintava o nosso país como sempre fez. O metrô zunia, rápido e cinza, baixo e embaixo do mundo, abrindo a boca, Consolação, para a avenida. Tanta gente e tanto azul, tão São Paulo, concreto e caos. A miséria piscava os olhos exaustos para mim, mas eu não queria cair em repetição, não hoje. 
Minha boca secava. Água caiu como água, vital. O horário do cinema estava certo, nem apertado nem solto; dei uma olhada nos livros recém-emprestados e escrevi alguns versos enquanto esperava. Saíam sem eu saber se eram bons ou não.
Caetano e Gil cantavam, o ritmo era o prelúdio certo e Tropicália não fez nada menos que o melhor. As cores, os caras, as figuras, o Brasil - Brasil, que som! Senti uma ponta de culpa por ouvir mais estrangeiros que conterrâneos e pena de quem se volta para o mundo sem olhar essas nossas raízes. País complicado, cordial, quente e bagunçado, ditadura dura e os que tiveram coragem de falar mais alto, torturados e exilados... O que leva alguém a proibir o pensamento de uma nação?
Tropicalismo breve e bombástico, que coisa. Se alguma vez falaram de orgasmo musical ou cinematográfico, era esse. Não havia lugar no mundo em que eu queria estar senão aquele. Minha paixão recente, Caetano, falava e cantava em sua voz doce. Tom Zé, aquela figura querida... e pensar que tenho uma foto com ele. Dancei com a solidão, cantei e cantei, saí da sala estonteada e em transe. "Terra em transe".
Já era noite e eu sentia falta dos fones de ouvido; estava tudo bem, as luzes emolduravam minha mente e os meus pés trilhavam rotas pelas calçadas. Não sei do fim disso tudo; sei dos sons que quero ouvir.

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