sábado, 21 de julho de 2012

SOLITÁRIO, RILKE


Saímos eu e ela do cinema logo que começou a noite. Tudo em fervilha pela rua, sexta-feira, bares, gravatas, saltos, tênis, fumaça, luz, aquela bagunça cotidiana de metrópole à qual a gente se acostuma. Eu ainda achava uma loucura, mas todos pareciam tão alegres e tranqüilos e neutros que comecei a pensar que talvez o louco da história fosse eu. Caminhava atrás dela, que ia abrindo caminho entre os mil e mil corpos enquanto eu afundava as mãos nos bolsos. Deus, nem me fale desse inverno. Mal sentíamos nossos dedos.
- Ah! gostei muito do filme – ela dizia. – Tinha umas cenas tão engraçadas. Achei que o final veio tão depressa, se é que me entende, porque...
E íamos andando e andando; ela falava demais e eu concordava com a cabeça, pisava em chicletes na calçada ou pensava nas quinhentas quadras que estava para caminhar. Dobramos a esquina e entramos na grande avenida. Era um mar ainda maior de birutice e escapamentos de carro mas eu tinha até, depois de tantos anos, criado uma afeição por aquele hospício. Ela claramente o adorava; andava como se fossem um do outro. Fez sinal então para que eu esperasse e entrou numa banca. Logo saiu de lá com um cigarro aceso e, ao contrário do que eu temia, não me ofereceu um trago. Devia saber que eu era um jovem careta. Me sentia um bobo deslocado que tentava se virar na cidade caminhando ao lado dela, pernas longas terminando em botas pretas, experiências que eu não calcularia, lábios vermelhos, o cigarro nos dedos. Era estranho como – e eu já tinha percebido isso em outros – todo seu ser e seu andar mudavam por causa daquele palito branco. Dando uma segunda pensada agora, bem beirava a arrogância. Caminhávamos e ela atraía todos os olhares, fosse pela aparência de modelo, pelo fumar, as roupas combinadas, eu sei lá. Talvez fosse a altura. Ultrapassava a minha.
E eu praticamente só ouvia, estava chato e chato, numa daquelas crises de laconismo repentino. "Deus, ela deve estar farto de mim", pensei. No sim ou no não, logo a tortura acabou e ela teve que ir embora.
- Até o fim do mês a gente sai de novo! - e desceu para o metrô, depois das despedidas.
Me perguntando o que ela tinha na cabeça para querer sair outra vez comigo, segui andando, sozinho. Eu não gostava dela. Não gostava de fato. Éramos colegas de faculdade e só. Amigos. E então, surpreso, vi que a placa da próxima esquina já indicava a minha rua; mal tinha percebido as quadras passando, provavelmente porque estava acompanhado. Quando eu caminhava sozinho prestava mais atenção na avenida, nos semáforos, nos meus próprios pés, nos vultos que viriam me assaltar assim que eu desviasse o olhar. Minhas mãos estavam mais quentes e eu não me sentia mais bobo e deslocado; droga de bipolaridade que me faz sentir bem numa hora e, zás, mal de novo e vice-versa. O que eu queria era chegar em casa e me jogar na cama, esparramado, derretido, estatelado, morto, sem negócios com essa terra louca.
Já quase chegando no meu prédio, vi o Sem Teto. Assim, em maiúsculas mesmo, porque o cara já havia se tornado personagem e entidade do meu cotidiano; vivia noite e dia na minha calçada, enrolado todo em um cobertor grosso que parecia ser áspero e fedorento, com a maior cara de loucura e simpatia que uma pessoa poderia ter. Sua história era complicada, perdera o emprego depois de não sei quantos anos de carreira, perdera a mulher, a casa, quase perdera a vida. Acenou quando passei, o sorriso e os olhos pedindo, lá no fundo, por uma esmola. Eu geralmente só dava depois de bater um papo com ele, e mesmo assim não era muita coisa. Mas aquele dia tinha sido tão cinza e cansativo, quase a letra de A Hard Day's Night inteira, e eu me sentia tão vazio e solto, que não estava me importando em ser um bom samaritano e dar dinheiro àquele cara. Trocamos umas palavras, ele soltou frases engraçadas naquela voz meio rouca, umas risadas de companheiro e se acendeu todo.
Com sua fala espirituosa e umas cenas do filme na cabeça eu subi os dois andares, exausto como um velho, destranquei a porta, larguei tudo no chão do apartamento bagunçado e lá, pesado e atirado no sofá, dormi, like a log, até o telefone tocar ao meio-dia. Era ela.

2 comentários:

  1. Eu li e tive aquela sensação de ler começo de um livro em sebo... E sentir vontade de levar para casa e acabar tudo em uma só tarde! Tá muito bom mesmo, é de ficar imaginando uma possível continuação.

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  2. Muito obrigada! :) agora vou até imaginar continuação. rs

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