domingo, 17 de junho de 2012

VIVA ELEANOR RIGBY

Como boa solitária em uma tarde de paz fui a uma biblioteca próxima pegar uma sequência de dois filmes antigos. Era daquelas com meia dúzia de frequentadores, todos eles que já haviam visto décadas e décadas passarem pelos seus olhos e agora procuravam museus, conservatórios e bibliotecas para aproveitarem a dura calmaria dos últimos tempos. Como não batiam as 4 horas, deixei a bolsa em um armário de metal e subi pela escada em quase caracol até a sala do acervo, acolhedora como toda biblioteca sabe ser. Os tacos rangiam e feriam o silêncio das letras a cada passo dado, me obrigando a dosar a força nos pés. Como de costume, senti-me pequena no meio de tanto conhecimento e isso era, de alguma forma, muito agradável. Talvez seja o que me faça rastejar para fora da cama toda manhã.
Não passei muito tempo lá em cima e logo desci para a salinha de cinema, que tinha no máximo umas dez cadeiras ocupadas. Uma pena; era um lugar muito bem ajeitado. O filme começou com flashes de Londres e uma música da época que dava nome à obra; recostei-me e, numa paciência anormal, assisti como se vivesse daquilo, do cinema. Os senhores e senhoras soltavam risadinhas a cada mínima brecha de comicidade nas cenas e, vez ou outra, podia-se ouvir um deles roncando.
Terminou tudo com a graça dos anos 60 e do sotaque inglês, dando então pausa para que fôssemos ao banheiro ou tomássemos um ar. Não saí do lugar e aproveitei os minutos de feitiço que se seguem a um filme que me agrade. 
Logo o segundo começou, também da mesma época e do mesmo país. Vasculhei a bolsa a procura de qualquer comestível que pudesse enganar o estômago, sem grandes sucessos. A sala, que não se encheu nem se esvaziou, assistiu ao clima escolar pesado daqueles tempos no século 20 e alguns jovens mais, digamos, rebeldes. Eis que escuto uma voz rouca vindo de trás. 
- Não julgue as pessoas. Não julgue as pessoas.
Um senhor balbuciava frases quase ininteligíveis na última fileira da sala, não muito longe de onde eu estava. Sua mão ao lado da cabeça dava a impressão de estar falando ao celular, quem sabe, mas não era o caso. Parecia não perceber a tela à sua frente ou mesmo tudo ao seu redor. Deixei até mesmo Malcolm McDowell declamando sozinho, e pus-me a observar com a coluna torcida o velho. Podia ser um louco, mas isso não chegava a me incomodar. Os loucos e os solitários quase brilham nos meus olhos, não sei... talvez seja só bobeira minha.

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