domingo, 8 de abril de 2012

LONG, LONG, LONG... THE WALL

Temos aqui uma reprise da temática daquela postagem do mês passado sobre o Chico Buarque. Versão dois, com motivo estrangeiro e estupendo. (Com todo o devido respeito, carinho e mérito desse mundo ao Chico, que fique claro.)
Confesso que estou com dificuldade em escrever isso aqui. Falta de talento, sim, mas especialmente receio ou impossibilidade de explicar aquelas quase duas horas e meia de show (show é pouco) do Roger Waters, ou até mesmo a falta de memória. Tem também o risco de parecer maluca... o que não é lá muita novidade.
Mas aí vai.
Deitei a cabeça incrédula no travesseiro naquela madrugada da quarta-feira recém-nascida; já não estava mais fedendo a dióxido de carbono, cigarro, cerveja, maconha e tudo aquilo. As dores nas costas e nas pernas estavam lá, mas eu não me importava muito. Nem um pouco, na verdade. As críticas agora faziam todo sentido e mais um pouco. Falavam de uma experiência sem precedentes, de outro planeta, espetacular e indescritível, e só depois de fazer parte da dita cuja eu entendi de fato. O cara soube transformar a noite de todos ali em algo extraordinário. Existem milhares de adjetivos, ainda assim nenhum deles me parece de todo digno suficiente daquele espetáculo. Vai, pode me chamar de exagerada... É só o começo.
Trânsito, luzes vermelhas, fumaça, cinza, flanelinhas e vendedores que não sabiam nem pronunciar o nome do Waters, camisetas aos montes penduradas para vender... Então era isso. 3 de abril. De lá de fora do estádio, a camiseta do The Wall do Floyd no corpo e a ansiedade a mil, vi um avião pregado na iluminação, que seria usado no show. Depois de uma hora (confusões à parte) fui finalmente desembocar na arquibancada, e aí dei de cara com nada menos que o muro. E agora era um sinal atrás do outro. As luzes apagando, um recadinho da produção (Roger pede a gentileza de que não usem flash... preciso nem dizer que não fez a mínima diferença, né?), e aí começa a música. Fogos. In the flesh? e, enfim, Roger no telão! Meu deus. Então estava acontecendo... LIGHTS! Turn on the sound effects! Action.
The Thin Ice. A super sequência que começava com Another Brick in the Wall part 1. The Happiest Days of Our Lives eu escutei, pasma, marcando as batidas com a mão (o que eu, na verdade, não parava de fazer). O helicóptero do início da música parecia estar sobrevoando o estádio. E aí viramos (eu pelo menos) todos crianças gritando "we don't need no education!" e "all in all you're just another brick in the wall!". Fiquei imaginando o Roger, o pai daquilo tudo, nos vendo como tijolos enquanto cantava. Apesar dessa ideia do muro e tudo me ser bem próxima, por algum motivo achei naquele momento que não éramos só tijolos. Tá ai um negócio que shows me fazem. Durante aquele par de horas tudo parece se resumir àquele ritual. Parece que paramos no tempo e deixamos de ser os tais tijolinhos...
Mother com um gracioso "NEM FUDENDO" e "Big mother is watching you" que me renderam um riso no rosto, sem falar nos telões que mostravam um Roger mais novo. Goodbye Blue Sky com imagens incríveis, Roger criticando o capitalismo, terrorismo e esses ismos, não que a crítica se resuma a essa faixa somente. Empty Spaces com a cena memorável das flores, What Shall We Do Now? com versos incríveis, e aí a agitada Young Lust. O que me comoveu foi o seguinte: One of My Turns (ô vício) e Don't Leave Me Now. Enquanto minha amiga dizia: "que depressão!" (é, ela não é fã), eu me emocionava como o diabo. Por deus, essas duas músicas juntas... Eu me senti abraçada.
Aaaaaarrrrrgh, Another Brick in the Wall part 3, crack crack crack. I don't need no arms around me. Eu não preciso, não preciso, não preciso... cantei com o Waters, sentindo pela centésima vez aquela alegria que não condizia com as letras do disco. Ah, era bom. 
Goodbye Cruel World e Roger sumiu para um intervalo meio eterno. Vamos lá, se recomponha que a coisa só vai ficar melhor.
A segunda parte contou com coisas lindas como Hey You e Is There Anybody Out There, tocadas atrás do muro, se a memória não me trai. O apocalipse começou, pra mim, com Bring the Boys Back Home, porque a partir daí não parei de soltar palavrão. Comfortably Numb; todos foram ao delírio. Eu não podia crer naquilo tudo. Olhei para o céu novamente, tão próximo de mim, em busca de alguma explicação, algum sinal de que aquilo era verdade. Não podia ser... Acabei de olhos transbordados, vendo o minúsculo Roger andar e correr pelo palco. Imagino como que um cara daqueles se sente sendo a cabeça e o foco daquilo tudo. Imagina ser dono de um trabalho eternamente brilhante? Uma lenda viva?
Ele virou o verdadeiro Pink em In the Flesh!, vestido feito deus de couro e falando da plateia e por fim "atirando" nela. Era demais! Ouvi Run Like Hell emocionada, raivosamente alegre, lembrando das vezes em que eu queria correr, correr, sumir. You better run...
Waiting For the Worms, que foi do caralho incrível. As caras e bocas e vozes e poses e andares daquele cara, tudo bem the-wallístico (esquece essa palavra que acabei de inventar), e comecei a ficar extasiada. Era magnífico. Os telões cheios dos vermes, para então chegar a hora mais agitada da música... WAITING. Roger incorporou o céu e a terra com o megafone então. Estava idêntico ao disco - só que, de algum jeito, melhor -, estava insano, ele icônico, os telões ali, a música no pano de fundo para eternizar aquele instantes.
Vou direto para The Trial, uma das minhas preferidas, acredite se quiser. Pela enésima vez na noite fiquei me lembrando do filme, que teve imagens mostradas no telão, o que só potencializava tudo... E o sotaque, aquele sotaque britânico fodástico sem igual. Ah, o julgamento. Craaaaaazy... e o estádio estremecia. Eu não estava aguentando. Tear down the wall! 
Quando vi, já tinha tudo acabado. Meus braços estavam exaustos de tanto aplauso, e se eu pudesse faria ainda mais alto. Roger sumiu, foi-se, obrigado, São Paulo, sem nem fazer ideia do que tinha acabado de produzir ali... ou fazia?
A vida virou um mero punhado de bosta depois que levantei do assento da arquibancada, me juntando à multidão lenta, bêbada e amarela. Minha mochila encharcada de cerveja alheia, as ruas apinhadas, a pipoca, as calçadas sujas, o trânsito e a miséria. Pensar que há tão pouco tempo eu estava ali, feliz como se não houvesse amanhã...
O mesmo se aplica a ter que fazer prova de Sociologia algumas horas depois e ver gente normal, tanta que nem conhece o Waters, all this riff-raff - perdoe a misantropia. 
Palavras finais? Fantástico, audiovisual, sensacional. A tal palavra bombril: foda. Em termos de show, o melhor que já vi, no duro. Não foi o sentimento que foi ver Paul McCartney e Ringo Starr ao vivo... esses são beatles, esses são prantos e a maior emoção na certa. Algo realmente incontrolável e esquisito. 

obs.: perdoem o post extremamente longo e fora dos padrões. Mas como não escrevo tanto assim por aqui, isso deve compensar por um tempo [risos]. 
obs2: The Wall se tornou, nas últimas semanas, um dos mais perfeitos retratos de mim. 
obs3: isso tudo foi uma tentativa de descrever aquele show, o que, claramente, é impossível de se fazer. Só quem esteve lá tem noção do tal "espetáculo sem precedentes" do qual a gente tanto lê...

3 comentários:

  1. Pior que eu li e lembrei do show... Mas eu dei uma chorada agora!
    Eu dei risada do "que depressão", porque eu lembro que cantei sorrindo muito Don't Leave Me Now... Parecia bêbada, no mínimo.
    Nossa... Que que foi esse show, né!

    ResponderExcluir
  2. Desculpa por essa chorada! haha Mas como bate saudade, nossa.
    Eu teria ficado brava se não tivesse coisa muito melhor pra fazer na hora, haha. Eu não parava de cantar sorrindo, mesmo que a letra não fosse alegre. Ainda mais em One of my turns, parecia outra bêbada!
    Nossa... Foi tão bom o show que até quem não é fã de Pink Floyd gostaria!

    ResponderExcluir
  3. Quem não era fã e estava lá teve a obrigação de virar! Foi foda aquilo *_*

    ResponderExcluir