sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Pé na lua

Alô! Acordado, estou acordado. Calcei as pantufas e andei até a janela, todo torto, bagunçado e feio como sempre fico de manhã. Não ousei tropeçar para perto do espelho. 
A cidade nunca me pareceu tão morta. Eram aqueles miseráveis prédios manchados de chuva, as pessoas fitando o chão de dentro de seus casacos puídos, o sol tímido por trás das nuvens e a fumaça dos carros. Oh! Se todos apenas soubessem por onde eu andei todo esse tempo, ah, se elas soubessem. Se soubessem das ruas bem asfaltadas por onde minhas solas pisaram, dos crepúsculos regados a vinho e poesia de rua, dos estrangeiros falantes e dos formosos barcos ao luar. Se estivesse em minha testa, carimbado e afixado, o céu que somente eu pude ver, lá tão longe e tão vivo. Abririam as portas das lojas, gritariam que sou vivido e mais um bocado, olhariam admirados e estonteados com tamanha maravilha. Como somos tão pouco, não somos quase nada!
No entanto não sabem; todos os que caminham agora aquecendo as mãos nos bolsos, ajeitando os óculos e esperando do dia uma lembrança melhor, nenhum deles sabe, não sabem de nada. Com o mesmo pensamento achatei o nariz no vidro gélido da janela. Mas como aqui é tão pouco! É de fato uma cidade tão morta. E eu hei de avivá-la, ah, se hei. Com meus olhos vividos e meus pés experientes, o passo viajado, as roupas cheias do pó do outro canto. Não perdem por esperar.
Me afastei da janela e, num ato mal pensado, dei de cara com o espelho. Vi o rosto pálido, amassado de sono, implorando por mais cama, os olhos tontos e sonhadores, o cabelo atormentado. És um tolo, homem! Não passas de um tolo. Não tem carimbo na testa que te faça mais digno, olhe bem para esse espelho; olhe para seus pés, não passam de pés e somente pés, os pés de um tolo. E a cabeça, nada além do fruto de uma mente maluca e que ainda vive dos mesmos crepúsculos passados. Vá, se ajeite! Pare de beber dessas memórias. 
Um passo para trás, dois, três, quatro; senti a dureza da cama e me larguei no colchão. Talvez seja verdade, talvez eu não passe de um tolo, o maior de todos os tolos. Dei uns tapas inconformados no travesseiro e pilhas de questões filosóficas ecoaram. Todas resolvidas com um bocejo e o melhor dos sonos matinais.

2 comentários:

  1. Olá,como vai você?Eu indiquei o seu blog para um selo e espero que você goste.
    As regras estão aqui no meu blog:
    http://almanaquedeoutono.blogspot.com/2012/02/selo.html
    E eu adorei o seu texto,você escreve muito bem!

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