sexta-feira, 17 de junho de 2011

História de quarto

Tranquei todas as duas portas que me separavam da sala de estar, assustado com a solidão de mundo. Eu sabia que as almofadas e as cortinas e a poltrona e o vaso de flores, todos estariam me ouvindo, e cochichariam.
Sentei-me na beira da cama, o violão nas mãos. Antes de qualquer nota fechei os olhos e deitei a memória nos meus músicos, todos. Misturas de Jim com Dylan e Elvis e George - todos aqueles que um dia olharam para mim e abriram a boca, torceram notas, natos. 
Minha pequeneza e falta de brilho eu deixei de lado; cantei. Com a voz vieram os dedos no violão velho, e o resto sustentou-se sozinho: a cabeça vazia, a voz andando certa, o pé no ritmo, as almofadas da sala bem quietas...
O moço que vos fala poderia tentar explicar aqueles vinte minutos de paz, a paz mais gostosa que já tivera o direito de sentir. Poderia tentar explicar o modo como as almofadas começaram a falar mais alto e mais alto, iguais à voz do pai quando chega em casa. Tentaria explicar também como ficou com os olhos na parede, mais tarde, sem pensar em nada. Se esforçaria em explicar os nichos de tranquilidade que apareciam com o violão e com o caderno de versos.
O jeito com que as flores têm me olhado dispensa o trabalho.

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